A volta por cima de Diego Hypólito, prata no solo da Rio 2016

 

Infeliz aquele que nunca caiu na vida. Infeliz aquele que nunca tomou um tombo. Infeliz aquele que nunca se machucou. O leitor deve estar se perguntando se o jovem repórter enlouqueceu. Afinal, quem gosta de sofrer? Não, caro amigo. O repórter não ficou doido. É isso mesmo. Quem nunca passou por uma dificuldade dessas não faz a mínima ideia da felicidade que é levantar após encontrar o fundo do poço. E aquele que nunca passou por isso não tem noção do quanto esses tombos nos fazem mais fortes. No mundo que vivemos, ter a capacidade de levantar, mesmo depois de cair várias vezes, talvez seja mais importante do que vencer.  E vencer sem perder a capacidade de se erguer após as derrotas é o que nos motiva a seguir em frente dia após dia e nos torna especiais.

 

O que aconteceu na Arena do Futuro, no início da tarde deste domingo, dia 14, na final do exercício de solo da ginástica artística masculina das Olímpiadas Rio 2016 foi algo daqueles que faz qualquer pessoa se acabar em lágrimas. São daqueles momentos mágicos em nossas vidas que nos inspiram e não permitem que a gente desista. Quando Diego Hypólito cravou sua série com um voo cortando o ar e tocou o chão com firmeza, sem vacilar, sem tremer e caindo de pé, tirava de suas costas um fardo pesado que carregou injustamente por oito anos, desde que foi alçado à condição de favorito absoluto para a medalha de ouro dessa mesma prova em Pequim 2008.

 

 

Na China, quando era considerado imbatível, Diego caiu sentado. Na Inglaterra, quando todos os especialistas falavam que ele brigaria por uma das medalhas, Diego caiu de cara. Nesta tarde, Diego caiu de pé, caiu para cima. O menino que lutou a vida inteira contra o preconceito de um país que insiste em não aceitar suas diferenças cravadas nas matrizes de formação de seu próprio povo, que discrimina veladamente, sem se assumir, de maneira covarde, todos àqueles que julga abaixo do seu padrão de sociedade perfeita, venceu. Muito mais que os adversários, o preconceito ou a discriminação, Diego venceu seus próprios medos, seu inimigos mais íntimos. Abalado por uma crise de depressão após os jogos de Londres, quatro anos atrás, o medalha de prata da Rio 2016 teve que vencer a si mesmo para subir no segundo degrau mais alto do pódio olímpico.

 

 

Diego Hypólito provou que é possível cair de pé e caiu. Caiu nas graças de um povo carente de exemplos e que luta diariamente contra tanta coisa ruim. Que hoje, depois de tanto tempo, possamos nos redimir e gritar para todo mundo ouvir. Quem dera ser Diego Hypólito. Quem dera todos fossem Diegos Hypólitos. Quem dera poder levantar de nossos tombos de maneira tão redentora. Que todos àqueles que tentam juntar os cacos de sua existência se reinventem, refletidos nas águas da mesma inspiração que afogou os medos interiores do menino voador. Vai, Diego. Siga voando, como um pássaro que plaina, que nos encanta a cada decolagem e que, ao menos naqueles instantes, ao mesmo tempo que te congela no ar, te eterniza em nossa memória. 

 

Aos prantos, o atleta falou sobre os tombos nas Olimpíadas anteriores, seus sonhos e a volta por cima.

 

- Na primeira Olimpíada (Pequim) eu cai de bunda, na segunda (Londres) eu cai de cara, hoje (no Rio) eu cai de pé. Se conquistei meu sonho, qualquer um pode conquistar o que deseja. Nunca deixem que as pessoas que dizem que você não vai conseguir te vençam. Ninguém pode dizer do que você é capaz. Apenas você mesmo - festejou Diego.

 

Finalmente, Diego Hypólito conquistou a medalha olímpica. Certamente, umas das pratas com mais sabor de ouro que já vimos.

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