"Cidade de Deusa!" Rafaela Silva conquista primeiro ouro do Brasil na Rio 2016

 

Rosto fechado, sem sorrisinhos, olhos arregalados e concentração refletida na retina. A primeira imagem de Rafaela Silva ao entrar no tatame da Arena Carioca 2 para disputar a medalha de ouro nas Olimpíadas Rio 2016, não deixava dúvida alguma que dificilmente aquela conquista escaparia de suas mãos. Menina pobre, criada em uma das mais carentes comunidades do Rio de Janeiro, a judoca teve que superar mazelas, dificuldades e, principalmente, o preconceito para chegar ao lugar mais alto do pódio. Pendurar a medalha de ouro olímpica no peito e conquistar a maior glória do esporte não foi fácil. Mas e daí? O que foi fácil na vida de menina que um dia disseram que o judô não tinha sido feito para pessoas como ela? O que foi fácil na vida de uma menina que tempos atrás vagava pelas ruas da Cidade de Deus sem perspectiva alguma de futuro? O que foi fácil para a atleta que cometeu um erro, acabou eliminada do torneio olímpico de Londres e viu o esforço de uma vida findar naquele cartão vermelho? Aliás, o que é fácil para qualquer brasileiro de bem que não se entrega às facilidades do dia a dia e que não abandona seus princípios?

 

Ao derrotar Sumiya Dorjsuren, da Mongólia, Rafaela Silva conquistou muito mais que a medalha de ouro dos Jogos Olímpicos. A judoca conquistou o respeito de todos que tinham qualquer desconfiança de sua força interior, de sua capacidade. Em momentos difíceis, como o que vivemos, onde o ódio aflora da pele, é preciso que pessoas como Rafaela, feitas de carne e osso, que cresceram em comunidades carentes, que não ficam exibindo carros de meio milhão de dólares nas redes sociais enquanto a maioria da população sofre para dar de comer aos seus filhos, se tornem os verdadeiros exemplos para nossas crianças.

 

De verdade, talvez esse seja o único legado real que um algo como as Olimpíadas deixem para os seres humanos. Mais que estradas, obras, transporte e outras melhorias urbanas, a maior herança que se leva de um evento assim é o exemplo que pode inspirar nossos filhos no futuro. Mas esse exemplo não é apenas um exemplo esportivo. É um exemplo do bem. O esporte mostra como a dedicação, o treino e perseverança levam qualquer pessoa a conquistar seus objetivos. Todos podem mudar sua história, mas é preciso muito trabalho para isso.

 

A menina que um dia esteve perdida nas ruas de uma comunidade no Rio de Janeiro, que foi sumariamente excluída das Olímpiadas de Londres por ter aplicado um golpe que havia sido banido das regras do judô quando vencia o combate, deu a volta por cima. Venceu uma por uma das adversárias, quase todas mais bem ranqueadas. Venceu a discriminação. Venceu o preconceito. Venceu o ódio daqueles que vociferaram contra aqueles que nas redes sociais dizendo que o judô não era feito para pessoas como ela. Pobres coitados. Se quiseram diminuir a atleta projetando nela suas frustrações internas, conseguiram justamente o contrário. Tornaram-se incentivo para que a judoca buscasse a mais alta glória do esporte. A medalha de ouro olímpica.

 

Quisera que em nossas vidas pudéssemos conviver com pessoas tão determinadas como Rafaela Silva. A jovem negra, pobre e discriminada, mais uma vez, nos dá um exemplo e mostra que o sonho ainda é algo permitido para todos. Existem pessoas que vivem para tentar diminuir os sonhos que temos na vida, existem pessoas que vivem para nos ajudar a sonhar cada vez mais alto e existem pessoas que nos inspiram a nunca desistir de nossos sonhos. Sem dúvidas, Rafaela Silva é uma dessas. A menina que tinha tudo para dar errado, deu certo. E, quer saber? Sorte a nossa poder testemunhar uma lição de vida dessas tão perto de nossos corações.

A LUTA DO OURO

 

Luta tensa, difícil, como sempre, começando muito bem estudada e com punições para ambas as atletas. Assim que passou o primeiro minuto, a brasileira encaixou um belo golpe que dividiu a arbitragem. Criou-se a expectativa que os juízes desse um ippon, golpe perfeito do judô, para a brasileira e cravassem a medalha de ouro em seu peito. Mas após analisar as imagens, os responsáveis pela luta deram uma wazari, segunda maior pontuação do judô, e colocaram a brasileira em ampla vantagem no combate.

 

A ateleta da Mongólia precisava se recuperar e tentava atacar a brasileira que se defendia bem. Em certo momento, a asiática empurrou a brasileira para fora do tatame, causando a revolta da plateia que explodiu em vaias. A luta seguiu com Rafaela se defendendo e o cronometro zerou. Era a senha que o publico precisava para explodir de felicidade. A atleta focada e avessa a qualquer expressão emocional durante os combates correu para os braços de seu técnico. No abraço paternal se entregou ao sentimento e deixou suas emoções transbordarem. Em seguida correu para os braços da família e pulou no meio das arquibancadas.

 

As lágrimas que rolaram pelo rosto de Rafaela Silva ao ouvir os acordes do hino nacional, eram mais do que a emoção de alguém que se superou para vencer na vida, eram os afluentes do rio que lava a alma de toda uma nação. A partir da tarde ensolarada desse dia 8 de agosto, a cidade olímpica não será mais a “Cidade de Deus”. Hoje, o maior barato será saber que o Rio de janeiro é a “Cidade de Deusa”.

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